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Peça 2

Modelo local é pior?

Por que a comparação que decide é entre o modelo e a tarefa, e não entre dois lugares em um ranking público.

Publicado em 07 de setembro de 20266 min de leitura

ModelosArquiteturaAvaliação

Toda avaliação de inteligência artificial dentro de casa esbarra na mesma objeção: se eu rodo um modelo aberto na minha infraestrutura, fico com um modelo pior que o de quem chama a API do provedor grande. A objeção é parcialmente verdadeira. O erro não está no fato, está na comparação. Mede-se modelo contra modelo, quando o que decide é modelo contra tarefa.

Esta é a segunda peça da série porque, resolvida a pergunta sobre onde o dado fica, a objeção que aparece logo depois, em boa parte das avaliações da Aptabit, é sobre qualidade, e a resposta honesta começa admitindo que a diferença existe.

A diferença entre o ranking e a tarefa

Os modelos de fronteira são melhores. Foram treinados com recursos que nenhuma organização isolada reúne, e essa distância é o que as avaliações públicas dos próprios fabricantes medem. Um fornecedor que negue isso perde o interlocutor técnico na terceira linha. O que a diferença não é, necessariamente, é decisiva para o trabalho que a sua empresa vai colocar em produção.

Esses testes medem teto de dificuldade. O trabalho corporativo que a inteligência artificial resolve bem costuma ter teto baixo. Classificar um documento, extrair campos de um formulário, responder a partir de uma base fechada de conhecimento, tudo isso tem formato previsível e resposta certa conhecida por alguém da casa. Nesse tipo de tarefa, a pergunta não é qual modelo pontua mais, é se a área de negócio distingue as duas saídas no material dela.

O critério prático é esse. Se a tarefa tem universo fechado, formato estável e alguém capaz de dizer se a resposta está certa, vale medir se a diferença ainda importa. Se a tarefa é aberta e depende de conhecimento que não está no seu acervo, a diferença aparece assim que o material real entra no teste.

Onde a diferença de modelo aparece de verdade

Uma peça que parasse no parágrafo acima seria propaganda. Há pelo menos três famílias de tarefa em que a diferença de modelo pesa, e em que ajustar a instrução costuma não resolver.

Raciocínio longo e aberto. Problemas que exigem sustentar uma cadeia de decisões por muitos passos, sem resposta única e sem gabarito, são onde os modelos maiores tendem a se separar. Análise exploratória, plano em várias etapas, síntese de material contraditório. Se o seu caso é esse, o modelo local custa qualidade, e o custo é visível.

Código difícil e conhecimento raro. Escrever ou depurar código não trivial, e responder sobre assuntos que dependem de conhecimento pouco frequente, seguem sendo território dos modelos de fronteira. Aqui a decisão razoável costuma ser usar o provedor externo, com consciência de que o conteúdo daquele fluxo sai da sua rede, assunto da peça anterior desta série.

Idiomas e domínios de cauda longa. Modelos menores costumam degradar em línguas pouco representadas no treino e em vocabulário técnico muito específico. O termo sai errado e o erro passa despercebido por quem não é da área. A degradação varia de caso a caso e não se lê pelo tamanho do modelo, então esse ponto não se resolve no papel. Só o teste com o seu próprio material responde.

Existe ainda um custo que não é de qualidade. Rodar o modelo dentro de casa troca a fatura por token por capacidade de computação instalada e por gente que saiba operá-la. A conta não desaparece, muda de lugar. A pergunta a fazer é quem opera essa capacidade e a que custo, antes da decisão e não depois dela.

Como montar a avaliação que decide a escolha

Independentemente de a escolha levar à Aptabit ou a outro lugar, estas perguntas dizem se a avaliação foi feita de verdade:

  1. Os casos vieram do meu acervo real, incluindo os malformados, ou foram escolhidos para demonstração?
  2. O critério de acerto foi escrito antes de alguém ver as saídas?
  3. Quem avaliou as saídas sabia qual modelo produziu cada uma?
  4. O tempo de resposta e o custo de operação foram medidos junto com a qualidade?
  5. O teste vai ser repetido a cada troca de modelo ou de versão?

A segunda é a mais fácil de pular, e sem ela a avaliação tende a confirmar aquilo que já se queria confirmar.

Por que esta peça vem logo depois da primeira

O site diz que a plataforma roda modelos locais ou em nuvem, sem dependência de fornecedor nem de modelo. Isso não é uma lista de compatibilidade. É a consequência de tratar o modelo como peça trocável, definida junto com o agente e explicitada fluxo a fluxo quando o destino é um provedor externo. Quem trata o modelo como centro amarra o produto ao patamar de um fornecedor e ao que ele decidir sobre preço, disponibilidade e termos de uso. Quem o trata como peça precisa que ele seja bom o suficiente para a tarefa e possa ser trocado quando deixar de ser.

Ir até o dado, em vez de pedir que o dado venha até nós, obriga a admitir que nem todo modelo cabe onde o dado está. Uma peça mais adiante nesta série trata de onde a inteligência roda e do que cada arranjo cobra por isso.

Ficou uma pergunta que a série não responde?

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